Página Inicial Os Escritores Lista de Crônicas + Recente + Antiga



Pavor de mãe

Luis Fernando Verissimo

De certa forma, o mundo adaptou-se às recomendações das nossas mães. Um dos pavores de mãe era corrimão de escada, lembra? Saíamos de casa com ordens para não tocar em nenhum corrimão, o que nos encheria a mão de germes dos outros. A invenção da escada rolante nos dispensou deste cuidado.

Outro pavor de mãe era dinheiro. Depois de tocarmos em dinheiro tínhamos que lavar as mãos correndo. E ai de quem esfregasse os olhos ou botasse um dedo na boca com a mão envenenada por dinheiro. Para prevenir a cegueira, evitar a intoxicação mortal e aplacar as mães, inventaram o cartão de crédito.

E até a proliferação de travestis, ou mulheres que fazem xixi de pé, tem a ver com pavor das mães. Que não cansavam de alertar as filhas para o perigo de sentar em privadas públicas.


SOM DOS TEMPOS

As épocas têm trilhas sonoras.

A trilha sonora da nossa época, o som do nosso tempo é o som dos alarmes de carro. O som da paranóia justificada.

O alarme de carro é o grito da nossa propriedade de que alguém está querendo tirá-la de nós. É a palavra mais desesperada que um ser humano pode produzir - "Socorro!" -, mecanizada, padronizada e repetida com todo o volume. É típico, porque existe para compensar a carência mais evidente da época, que é a falta de segurança.

Os carros pedem socorro porque a sua defesa natural - polícia por perto ou o respeito pelo que é dos outros - não existe. Só lhes resta gritar.

E o alarme contra roubo de carro é próprio da época, porque, frequentemente, não funciona. Ou funciona quando não deve. Ouvem-se tantos alarmes de carro a qualquer hora do dia ou da noite porque, talvez influenciados pela paranóia geral, eles disparam sozinhos.

Basta alguém se aproximar do carro com uma cara suspeita e eles começam a berrar.


OBERON

O nome não é a pessoa, mas a minha vida seria completamente diferente se eu me chamasse, por exemplo, Oberon. Oberon Frenegaz de Hoz e Malgavia. Para começar, jamais teria dificuldade em reservar mesa num restaurante.

- Es para Oberon Frenegaz de Hoz e Malgavia de Soler e Pantajas.

Uma pausa e o arremate:

- Tercero.

- Sim, senhor. Uma mesa para quantos?

- Dez. Estarei sozinho.

Sim, porque, com um nome assim, mesmo sozinho você é um cortejo.

O nome que escolhemos, ao contrário do nome que nos dão, revela a ideia que fazemos de nós mesmos e os projetos secretos que sempre tivemos para as nossas vidas e o nome dado impedia. Quem escolhe se chamar Oberon é porque tem ambições de Oberon. Planos de Oberon. Que, obviamente, boas coisas não podem ser.

A minha mulher não entenderia.

- Mas, Luís Fernando...

- Oberon.

- Mas, Oberon... Esse bigode... Essa piteira de madrepérola... Você nem fumava.

- Cajate, mujer.

- E esse mau espanhol...

- No tengo que te dar explicaciones. Mis pantufas!


Domingo, 28 de junho de 2009.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.